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QUANDO A FARDA PERDE O RUMO

  • Categoria: ARTIGOS
  • Publicação: 11/05/2026 18:43
  • Autor: Paulo Moranza

Quando a farda perde o rumo

Por Paulo Moranza

 Confesso que foi difícil assistir e até hoje aceitar certas cenas do 08 de janeiro, ainda vivas em minha memória, sem sentir indignação e repulsa pelos malfadados generais. Ver cidadãos sendo detidos dentro de um ônibus, sob ordens militares, não me pareceu apenas um episódio isolado: soou como um sinal preocupante de que algo está profundamente fora do lugar.

Sempre enxerguei as Forças Armadas, principalmente nos períodos de governos militares, não como ditaduras como alguns defendem, mas como uma instituição que transmitia muita segurança e tranquilidade ao povo brasileiro de bem. Mas episódios como esse abalam essa percepção. Fica a sensação de que, em vez de proteger, há momentos em que a autoridade é usada de forma dura, desproporcional e questionável contra quem deveria ser justamente resguardado por ela.

 O que mais me incomoda não é apenas a ação em si, mas o que ela simboliza. Quando figuras de alto comando se envolvem direta ou indiretamente em situações assim, a impressão que fica é de um distanciamento perigoso da realidade civil. Como se o peso das decisões não encontrasse correspondência na responsabilidade que deveria acompanhá-las.

Também me chama atenção o silêncio vergonhoso que veio depois. Pouca explicação, pouca transparência, pouca disposição para um debate aberto. Isso só aumenta a desconfiança. Afinal, se tudo foi feito dentro da legalidade e da necessidade, por que não esclarecer de forma clara e acessível?

Não estou falando aqui de ideologia, mas de percepção e de limites. Do ponto de vista de quem observa de fora, fica difícil aceitar que ações desse tipo sejam tratadas com naturalidade ou justificadas sem o devido escrutínio.

Acho que não só ministros do STF, mas principalmente esses generais, deveriam ser responsabilizados dentro da lei pelos atos tão nocivos contra quem realmente é o titular do poder: o povo brasileiro. Que haja investigação séria, devido processo legal e, se comprovadas irregularidades, as devidas punições.

Para mim, autoridade de verdade não se impõe no grito nem na força. Ela se sustenta na legitimidade e no respeito. E quando episódios como esse entram para a memória coletiva, o que se desgasta não é apenas a imagem de indivíduos, mas a confiança em toda uma estrutura.

No fim, o que permanece é um desconforto persistente: até que ponto esse tipo de conduta será tolerado? E quem, de fato, assumirá a responsabilidade de responder por isso diante da sociedade?

E deixo duas perguntas ao povo brasileiro: até quando vamos normalizar o abuso de autoridade sem reação proporcional da sociedade? E quem realmente está disposto a cobrar responsabilidade daqueles que deveriam servir, e não se impor sobre o cidadão comum? Quem sabe os governantes futuros atendam os clamores dos brasileiros.