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Entre a Legalidade e o Descompromisso: um olhar de quem já governou Sumaré.

  • Categoria: ARTIGOS
  • Publicação: 03/05/2026 11:45
  • Autor: Paulo Moranza

Entre a Legalidade e o Descompromisso: um olhar de quem já governou Sumaré.

Por Paulo Moranza

 

Falo não apenas como cidadão, mas como alguém que já teve a responsabilidade de governar Sumaré. Por isso, a decisão da Câmara Municipal de retirar a punição a vereadores que não residem na cidade não me causa apenas estranhamento, causa preocupação.

 

Quem já ocupou a chefia do Executivo municipal sabe que administrar uma cidade vai muito além de analisar relatórios ou participar de reuniões formais. Governar e legislar exige presença constante, escuta ativa e, acima de tudo, convivência com a realidade local. É no dia a dia, nas ruas, nos bairros, no contato direto com a população, que se compreende de fato onde estão os problemas e quais devem ser as prioridades.

 

Por isso, é difícil aceitar com naturalidade a ideia de que um vereador possa exercer plenamente seu mandato sem viver a cidade que representa. Não se trata de uma exigência excessiva, mas de um compromisso básico. Um representante que não reside no município inevitavelmente perde parte dessa conexão essencial e isso se reflete na qualidade das decisões.

 

A mudança aprovada pela Câmara soa como um passo na direção errada. Em vez de fortalecer o vínculo entre representantes e representados, opta-se por enfraquecê-lo. Em vez de exigir mais compromisso, aceita-se menos. E isso, na prática, tende a ampliar a distância entre a política institucional e a vida real da população.

 

Ao longo do meu período à frente da prefeitura, ficou claro que os maiores acertos da gestão vinham justamente da proximidade com as pessoas. Muitas decisões importantes nasceram de conversas informais, de visitas a bairros, de ouvir diretamente quem enfrentava os problemas. Essa vivência não pode ser substituída por análises à distância.

 

Também preocupa o precedente que essa decisão estabelece. Quando se flexibiliza um critério tão fundamental, abre-se espaço para outras relativizações. Aos poucos, aquilo que deveria ser exceção pode se tornar regra, e o padrão de exigência na vida pública vai sendo rebaixado.

 

Não ignoro que há argumentos técnicos ou jurídicos que sustentem a mudança. Mas a política municipal não pode se guiar apenas pelo que é possível dentro da lei, ela precisa buscar o que é mais adequado, mais responsável e mais fiel ao interesse da sociedade. E, nesse caso, é difícil defender que afastar o representante da realidade local seja um avanço.

 

Faço essa crítica com respeito à Câmara e aos vereadores, que exercem um papel legítimo e necessário. Mas justamente por reconhecer a importância dessa função, considero essencial apontar quando decisões caminham na contramão do interesse público.

 

Sumaré merece representantes que conheçam sua realidade não por relatos, mas por vivência. Que sintam, no cotidiano, os efeitos das políticas que ajudam a construir. Qualquer movimento que afaste essa relação enfraquece não apenas o mandato parlamentar, mas a própria confiança da população na política.

 

E não é a primeira vez que esse tipo de distanciamento causa incômodo. Em um passado recente, já vimos, em nível estadual, um parlamentar eleito com forte vínculo com Sumaré mudar sua base para outra cidade, o que gerou e ainda gera desconforto entre muitos moradores. Esse tipo de movimento evidencia o quanto a população valoriza a proximidade e o compromisso real com o município.

 

Se decisões como a atual continuarem nesse rumo, corre-se o risco de banalizar completamente esse vínculo. Do jeito que as coisas estão caminhando, não seria surpresa se, em breve, começasse a ser visto como algo normal até mesmo a possibilidade de prefeitos que não vivem na cidade que administram. Para muita gente, essa ideia já soa como algo forçado, distante da realidade e pouco conectado ao sentimento da população.

 

E isso, definitivamente, deveria nos preocupar.

"Você concorda com essa mudança?" ou "O que você acha dessa situação em nossa cidade?".

 

Abraços!